O Poeta
O poeta Alexandre França estréia com uma poesia forte, que não dá espaço para o gosto de que nada se está falando; consegue atingir o leitor no que lhe é mais caro: a capacidade de interpretação. Seus poemas apresentam o sujeito perdido pela invasão do inconsciente. O leitor não fica impassível.
Há em Mata-Borrão, Batom um apego, uma interação, uma necessidade de apontar caminhos ou descaminhos do sujeito, este, a tentar decifrar suas angústias e inquietações. Ao rasparmos as fortes cores que recobrem a obra, emergirá uma musculatura tensa, a hipérbole, portanto está também no interior das carnes de cada um dos poemas que compõe este livro, e não apenas em suas superfícies. Um vórtice incessante talvez seja o símbolo que melhor traduza está obra.
Em breve , o leitor se colocará a palmilhar o espaço do aturbilhonamento, em meio a brumas e surpresas, onde os signos, com engenho, são exercitados a exaustão; é, pois, no fluxo de consciência, e nos recursos sinestésicos, utilizados com muitas propriedade pelo poeta, que os poemas se mostram e buscam se mostrar.
"conversando entre si; matutando o próximo escolhido; a próxima Carmem Miranda". Os versos acima apontam como o poeta trata o cânone literário. Ele sabe que está no âmbito do cânone, mas não sente a necessidade de respeita-lo, sua necessidade é tocar o outro . França não é um poeta que apenas espia o mundo pela janela, mas alguém que possui um tato para sensibilizar as ações cotidianas - dar-lhes uma intensidade.
Alexandre França está a pousar o seu fazer em plagas singulares. A intuição fornece-lhes as regras de seu jogo, não podemos pensa-lo fora das engrenagens de suas próprias regras. O objetivo, entendo eu, é compreender o mecanismo que nos faz ver o livro funcionando. Libertar-se de preocupações e de certas interferências - que muitas vezes estreitam o espaço da experimentação - é o que faz de Mata-Borrão, Batom uma bela estréia; uma poesia intuitiva e, no entanto, objetiva.
Tibério Santos
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Poesias
Morte num dia comum No passeio público
Um andar inebriado de cadela
Escorre a azáfama de cães esfomeados.
O carro de som da partida a fome das vielas
"hoje, só hoje" berra o berro da mão do motorista.
A ruminar soluços,
Berços incandescentes disparam baforadas de vícios perdidos.
Meu corpo espera a carne irromper no precipício
O estopim da lugar ao óbvio
Ao não início
E o meu óbito cruza as pernas,
Na certeza de que alguém
Ao menos hoje,
Sentará ao meu lado.
Largo
Lambendo migalhas de pés pelados
Asfalto de pedra poema
A noite ouve e exala os últimos grãos
Tintas de spray, trovões do dia
Gotas de sabão Omo na canaleta carmelita
Insisto em fluídos quentes
Restos de chops nas mesas distraídas
Me coloco na posição felino-pobre
Tomo num gole os inversos
E vomito o frêmito-bandido-de-malandro-otário
Residente em mim
Sou puta e filho no mesmo tomo
Extraio vazios verdes do ralo da manhã
Espero um atropelamento, ao menos um
Para dormir sossegado
Acordo pálido na matina
Um pingo sangue solitário respinga no meio do papel
Meu caderno de gravuras a suportar destilados
O sol nasce do lado errado
Ruboriza, acocorado, vermelho
Nem ele escapa de, em Curitiba, um dia
Acordar chapado.
Atropelamento
(para Sam Shepard)
da janela uma luneta:
alguém procura uma lua,
uma estrela, um brilho
qualquer no quarto ou na rua.
na canaleta do expresso
um guri de bicicleta
abre os seus braços e grita
"sem as mãos" durante um metro.
ele me atropela ao ser
atropelado e eu durmo
acordado sem querer
e o cara da luneta
que me queria pelado
chora comigo um choro
bêbado e desgovernado.
Desolador e esclarecedor
(versão final)
É desolador e esclarecedor
O cachorro roubando do velho
O resto da barra de cereal
A vontade de misturar bebidas
Para dizer umas verdades
A corrida de fórmula 1
Sem nenhum grave acidente
É desolador e esclarecedor
O dente roxo de vinho tinto
O dedo amarelo de nicotina
O vermelho daquilo
Que não é sangue
O azul daquilo
Que não é céu
O verde daquilo
Que não é mato.
É desolador e esclarecedor
O lacre do iogurte
Não abrir com um simples toque
Uma droga de um desenho animado
Não conter violência por ser educativo
Assistir esta droga
Só para conhecer o final
É desolador e esclarecedor
O resultado da loteria
O resultado de uma pesquisa no google
Sobre você mesmo
O resultado de um teste de gravidez
O resultado de um exame de vista
É desolador e esclarecedor
Reencontrar o amigo de infância
Que um dia o traiu
Reencontrar o primeiro amor
Que não sabe quem você é
E nunca irá saber
Reencontrar o primeiro livro
Que você leu na vida
O primeiro verso que mudou a sua vida
Mas que agora, estranhamente
Não faz tanta diferença
É desolador e esclarecedor
A tendinite do pianista
A amnésia de um poeta
O transtorno obsessivo
De conferir se a porta do banheiro
Esta realmente fechada
O prato cheio de uma anoréxica
É desolador e esclarecedor
Uma grávida chorando
Na fila do supermercado
Alguém chamando pelo pai
No meio de uma festa junkie
Uma senhora mostrando a foto dos netos
Hoje com mais de trinta anos.
AlexandreFrança©2006
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